domingo, 19 de maio de 2013

O Plano de Wellington

«I cannot have a better opportunity for trying the fate of a battle, which, if the enemy should be unsuccessful, must oblige him to withdraw entirely.»

De acordo com Sir Charles Oman, o mais reputado historiador da Guerra Peninsular, Sir Arthur Wellesley, à época Marquês de Wellington, nunca colocou por escrito e de forma detalhada o seu plano para a campanha de 1813. Portanto, os historiadores tiveram que recorrer à correspondência de Wellington e a mais algumas referências indiretas para tentar perceber os seus objetivos e o plano destinado a atingi-los. Do resultado desse trabalho efetuado por Sir Charles Oman dá-se aqui um pequeno resumo.


Fotografia da casa em Freineda onde esteve instalado o
quartel-general de Wellington durante o inverno de 1812-1813
Durante o inverno de 1813, no seu quartel-general de Freineda, Wellington foi desenhando o seu plano para a campanha que tencionava iniciar na primavera.
Na sua mente estava a intenção de não repetir os erros que tinham acorrido durante a campanha de 1812, tendo o plano sido progressivamente afinado à luz dos acontecimentos que se iam desenrolando quer na Península quer na Grã-Bretanha e no Leste da Europa.
Na Europa, a derrota de Napoleão na Rússia levou ao enfraquecimento militar e político da França e essa situação não deixou de ter consequências para o poder napoleónico na Península.
Em Espanha, José Bonaparte, usurpador do trono, encontrava-se numa situação progressivamente mais difícil desde que os exércitos franceses abandonaram o sul do país em 1812, perdendo importantes recursos para o governo espanhol centrado em Cádiz. Além disso a intensa atividade dos grupos de guerrilha que alimentava a rebelião nas províncias do norte de Espanha provocava grande desgaste e obrigava à dispersão das forças francesas. Para piorar, Napoleão retirou da Península importantes recursos militares, de que necessitava para continuar a guerra no centro da Europa, enfraquecendo ainda mais o poder francês.
Do outro lado, Wellington conhecia bem a situação francesa graças às informações recolhidas na grande quantidade de correspondência francesa capturada e pela ação dos insurgentes espanhóis.
Na Grã-Bretanha, apesar do desaire da campanha de 1812, o crédito granjeado por Wellington permitiu-lhe continuar a ter todo o apoio do seu Governo e obter importantes reforços nomeadamente em cavalaria, da qual o exército aliado tinha sido sempre deficitário.
Na Península, a sua nomeação como Generalíssimo dos exércitos espanhóis em 18 de Novembro de 1812 deu-lhe não só o poder de comandar diretamente as tropas espanholas mas também a autoridade necessária para mobilizar recursos materiais necessários à campanha militar a que se propunha e cujo cenário seria o território do centro e norte de Espanha.


Engraved for the Illustrated London News in 1852, after the drawing by the Countess of Westmorland of September 1839

As palavras concisas do próprio Wellington dão-nos a conhecer o plano de manobra que pretendia levar a cabo no que considerava ser a primeira parte da campanha. Ficam essas palavras, retiradas do seu despacho de 11 de Maio de 1813 para Lord Bathurst, Secretário da Guerra no governo britânico:

«I propose on this side to commence our operations by turning the enemy’s position on the Duero, by passing the left of our army over that river within the Portuguese frontier. (…) I therefore propose to strengthen our right and to move with it myself across the Tormes, and establish a bridge on the Duero below Zamora. The two wings of the army will thus be connected, and the enemy’s position on the Duero will be turned.
The Spanish army of Galicia will be on the Esla on the left of our army at the same time that our army will be on that river.
Having turned the enemy’s position on the Duero, and established our communication across it, our next operation must depend upon circumstances. I do not know whether I am now stronger than the enemy, even including the army of Galicia; but of this I am very certain, that I shall not be stronger throughout the campaign, or more efficient, than I now am; and the enemy will not be weaker. I cannot have a better opportunity for trying the fate of a battle, which, if the enemy should be unsuccessful, must oblige him to withdraw entirely.»[1]
 
[tradução:] «Eu proponho neste lado iniciar as nossas operações flanqueando as posições do inimigo no Douro, fazendo a esquerda do nosso exército passar esse rio dentro da fronteira portuguesa. (…) Proponho então reforçar a nossa direita e mover com ela através do Tormes, e estabelecer uma ponte no Douro abaixo de Zamora. As duas alas do exército serão dessa forma ligadas, e a posição do inimigo no Douro será torneada/flanqueada.
O exército espanhol da Galiza estará no Esla à esquerda do nosso exército ao mesmo tempo que o nosso exército estará nesse rio.

Após tornear a posição do inimigo no Douro, e estabelecendo a nossa comunicação além dele, a nossa próxima operação depende muitos das circusntâncias. Não sei se sou agora mais forte que o inimigo, mesmo incluindo o exército da Galiza, mas disto tenho muita certeza, que não serei mais forte ao longo da campanha, ou mais eficiente, do que sou agora; e o inimigo não será mais fraco. Não consigo encontrar uma melhor oportunidade para tentar o destino de uma batalha, que, caso o inimigo seja mal sucedido, o obrigue a retirar totalmente.»

Depois de concentrar todo o exército na margem direita do Douro, Wellington diz-nos que seriam as circunstâncias a ditar a sua ação. Mas Wellington já tinha tomado uma série de providências destinadas a aproveitar eventuais circunstâncias favoráveis.
Talvez a mais importante dessas providências fosse a transferência da sua principal base de apoio de Lisboa para a Coruña e outros portos no norte de Espanha, encurtando assim a distância a percorrer pelos abastecimentos vindos da Grã-Bretanha. Para garantir essa transferência, Wellington pediu para que a Royal Navy assegurasse o controlo da costa norte de Espanha e da Baia da Biscaia, negando o acesso aos franceses, apoiando os insurgentes espanhóis e o próprio exército aliado quando fosse necessário.
Outra providência tinha sido o pedido para a constituição na Grã- Bretanha de um trem de artilharia de cerco para lhe ser enviado em caso de ser necessário investir e assaltar praças-fortes.
Por fim, tornando-se comandante-em-chefe de todos as forças aliadas na Península, Wellington pôde coordenar o seu esforço a partir de Portugal com a ação da força anglo-siciliana e espanhola que operava na costa mediterrânica, importante para fixar o Armèe d’Aragon do Marechal Suchet na defesa de Valência, impedindo-o de apoiar os exércitos franceses a ocidente.
Os planos e providências de Wellington eram ambiciosos e permitem afirmar que ele considerava a campanha de 1813 como decisiva e que o seu objetivo não era outro que não fosse acabar definitivamente com o poder francês na Península.

Bibliografia:
Sir Charles Oman, A History of the Peninsular War, Volume VI.
The Dispatches of Field Marshall The Duke of Wellington, (…) compiled (…) by Lieut. Colonel Gurwood. Volume X.



[1]The Dispatches of Field Marshall The Duke of Wellington, (…) compiled (…) by Lieut. Colonel Gurwood, volume x, p. 372.

terça-feira, 7 de maio de 2013

From Douro to Toulouse


Portrait of Duke of Wellington,oil painting,
by Francisco Goya (1810-1812),
National Gallery
200 years ago, in the Iberian Peninsula, there was about to start one more chapter that in many historical traditions is called Guerra Peninsular, Peninsular War, Guerra de la Independencia or Guerre d'Espagne. This chapter would be the last of a drama that for 5 years had the scenario the domains of Spain andPortugal.

A great Anglo-Lusitanian army condenses for the campaign of 1813, but it already exists for 5 years, melting together in the fight against the French armies, whether in the uprisings of the North, in the Algarve and Alentejo, in the ordenanças and militia, whether in the Battles of Roliça and Vimeiro.

It exists in the battles of Porto, of the Amarante bridge and the Talavera campaigns in 1809; it exists during that year in the integration of the Portuguese and British forces, in the translation of it's regulations and joint training.

It is an army that has conclusively proven itself at the height of Buçaco, at Sepember the 27th of 1810, at the exact moment where Portugal struggled against the most formidable French threat seen so far, experiencing tragedies like Almeida and the devastation o f villages and the fields of the Beiras and of Ribatejo; it exists in the Lines of Torres Vedras, side by side, defending Lisbon, evicting out of Portugal, by at 3rd time, the proud French Army. It exists during the 1811 campaign, in Fuentes d'Oñoro, Badajoz and La Albuera. It exists, more and more battered and experienced in 1812, in the takeovers of Ciudad Rodrigo and Badajoz, in Salamanca, Madrid and Burgos.

The Duke of Wellington & his staff.
Crossing the Bidassoa & entering France, 1813
(private collection)
But in 1813, the troops of all the nations involved against Napoleon in the Iberian Peninsula gather for the 1st time as one army, under the command of General Sir Arthur Wellesley, by then “Marquess of Wellington”. The ultimate goal of this multinational force is the definitive eviction of the French out of the Peninsula. With the nomination of Wellington as Field Marshall of the Spanish army (Generalissimo), the Spaniards join the British and the Portuguese, becoming one of the most important part of the great allied army.
In the Spring of 1813 starts the gathering of this allied army, 106 701 men strong; they gather in Trás-os- Montes, Galiza and the area of Ciudad Rodrigo. 52 484 British soldiers, 28 792 Portuguese and 25 425 Spaniards, commanded by experienced, and of proven valor, Generals like Beresford, Hill, Picton, Cole, Alten,Clinton, Stewart, Hope, Graham, Conde de Amarante, Lecor, Longa, Carlos de España and so many others.

This campaign starts for the allies with a promise of success, because of the news of the catastrophic retreat of the French in Russia and a new political understanding for the formation of the 6th Coalition against the French, following their retreat of South of Spain, just as the reduction of the manpower ordered by Napoleon, having a need of veterans in the Peninsula for the re-build of the Grand Armée.
It was the perfect moment for the allied Army to take an offensive strike, becoming part of the greater European fight against the Napoleonic France.


Translated from the original text “Do Douro a Toulouse” by Jorge Quinta-Nova & Moisés Gaudêncio

domingo, 5 de maio de 2013

Do Douro a Toulose

Retrato do Duque de Wellington,
óleo de Francisco Goya (1810-1812),
National Gallery
Há 200 anos na Península Ibérica, estava prestes a iniciar-se mais um capítulo do que nas várias tradições históricas se chama Guerra Peninsular, Peninsular War, Guerra de la Independencia ou Guerre d’Espagne. Este capítulo seria o último do drama que há cinco anos tinha por cenário as terras de Espanha e de Portugal.

Um grande exército anglo-luso concentra-se para a campanha de 1813, mas ele existe já há cinco anos, forjando-se na luta contra os exércitos franceses, quer nas revoltas das províncias do Norte, do Algarve e Alentejo, nas ações das Ordenanças e Milícias quer nas batalhas da Roliça e do Vimeiro.

Existe nas batalhas do Porto, da Ponte de Amarante e na campanha de Talavera, em 1809; existe durante esse ano na integração das forças portuguesas e britânicas, tradução de regulamentos e treino conjunto.

É um exército que se prova conclusivamente nos altos do Buçaco, em 27 de setembro de 1810, no momento exato em que Portugal se debateu com a mais formidável ameaça francesa até então, vivendo tragédias como Almeida e a devastação das aldeias e campos das Beiras e do Ribatejo; que existe nas Linhas de Torres Vedras, lado a lado, defendendo Lisboa, expulsando, uma terceira vez, de Portugal o orgulhoso Exército Francês. 
Existe depois em toda a campanha de 1811, em Fuentes d’Oñor, Badajoz e Albuera. Existe, cada vez mais calejado e experiente em 1812, nas tomadas de Ciudad Rodrigo e Badajoz, em Salamanca, Madrid, Burgos.

The Duke of Wellington & his staff.
Crossing the Bidassoa & entering france 1813
(colecção particular)
Em 1813, porém, reuniam-se pela primeira vez num único exército, sob o comando superior do General Sir Arthur Wellesley, então Marquês de Wellington, tropas de todas as nações envolvidas na guerra contra Napoleão na Península Ibérica. O objetivo último desta força multinacional era a expulsão definitiva dos franceses da Península. Com a nomeação de Wellington como Marechal General do Exército Espanhol (Generalíssimo),  juntavam-se aos Portugueses e Britânicos os exércitos espanhóis que se iriam transformar numa parte importante do grande exército aliado.
Na Primavera de 1813 começou a concentração deste exército aliado, forte de 106 701 homens; reuniram-se em Trás-os-Montes, Galiza e na área de Ciudad Rodrigo, 52 484 britânicos, 28 792 portugueses e 25 425 espanhóis, comandados por generais experientes e de valor comprovado, como Beresford, Hill, Picton, Cole, Alten,Clinton, Stewart, Hope, Graham, Conde de Amarante, Lecor, Longa, Carlos de España e tantos outros.

Esta campanha iniciava-se para os aliados com a promessa de sucesso, pois às notícias da catastrófica retirada francesa da Rússia e de um novo entendimento político para a construção da Sexta Coligação contra a França, seguiu-se o abandono do sul de Espanha pelos franceses assim como a redução de efetivos ordenada por Napoleão, necessitado dos veteranos da Península para a reconstrução do seu Grand  Armée. Era o momento perfeito para o exército aliado tomar uma postura ofensiva, inserindo o seu esforço no quadro mais geral da luta europeia conta a França napoleónica.

Texto: Jorge Quinta-Nova & Moisés Gaudêncio

Bibliografia
Oman, Charles, A History of the Peninsular War, Volume IV, London: Greenhill Books, 1996 (1922), p. 750 e seguintes.