domingo, 15 de março de 2015

A Batalha de Saint Pierre - 2

It effectually turns the fortune of the day at that point.

Na sequência do post anterior apresentamos agora a tradução do relatório escrito pelo Tenente-General Sir William Stewart, comandante da 2ª divisão aliada, e enviado ao seu superior, o Tenente-General Sir Rowland Hill, que comandava o corpo aliado destacado na margem direita do rio Nive.
Sir William Stewart não esconde no seu relatório a importância do esforço das unidades portugueses durante todo o combate de Saint Pierre, elogiando a sua coragem e disciplina naquela ocasião dramática.

Tenente-General  Sir William Stewart para o Tenente-General Sir Rowland Hill
Petite Mouguerre, 14th December, 1813

(The Hon. Sir William Stewart)
Senhor,
Ao nascer do dia de ontem,  percebeu-se que o inimigo tinha concentrado as suas colunas na estrada de Bayonne, em frente do subúrbio de Saint Pierre. Às 8 da manhã o inimigo avançou com muita animação contra os nossos postos avançados colocados sobre aquela estrada. O centro da posição, que era interceptado pela estrada, tinha sido entregue à brigada portuguesa comandada pelo Brigadeiro General [Charles]Ashworth. O inimigo iniciou imediatamente um ataque determinado pela estrada e por ambos os lados dela, e ao mesmo tempo destacou uma grande força pela sua direita para aquela parte da posição central que repousava num regato de moinho e numa ravina que separava o centro da nossa esquerda, ocupada pela brigada do Major-General Pringle. O movimento do inimigo naquela direção foi rápido, e, se bem sucedido, teria separado aquela brigada do resto da 2ª divisão.
O inimigo, ao mesmo tempo ou um pouco depois, moveu a divisão Darmagnac contra a direita da posição, ocupada pela brigada do Major-General Bing, no alto e na vila de Vieux Mouguerre. O extremo direito desta posição repousava no Adour, enquanto a esquerda do Major-General Pringle se estendia até ao Nive. A extensão da frente assim ocupada pela 2ª divisão era quase de 4 milhas, os flancos estendendo-se em alturas, e o centro, de forma semicircular, possuía um carácter favorável à defesa. Todo o terreno ocupado é muito retalhado, com muitas casas dispersas, impróprio para os movimentos da cavalaria.
O objectivo do inimigo era forçar o nosso centro, ameaçar a esquerda e tomar posse firme da nossa direita. Esse objetivo, atingido em primeira ou última instância, (a altura de Vieux Mouguerre liga-se com a de Petit Mouguerre na retaguarda do centro) levaria necessariamente à retirada de toda a linha avançada. O ataque contra a brigada do Major General Pringle foi comparativamente mais fraco, e conduzido principalmente por tropas ligeiras. Assim que foi desencadeado o ataque sobre os postos avançados no centro, as companhias ligeiras da brigada do Major General Barnes avançaram para os apoiar e aquela brigada chegou logo após.
As colunas inimigas no centro, apesar de muito fustigadas pelos piquetes, conseguiram fazê-los recolher e estabeleceram-se numa crista intermediária entre a estrada e a esquerda do centro da posição.
(Batalha de Saint Pierre - 13 de Dezembro de 1813)

Nesse local e em algumas casas vizinhas, em ambos os lados da estrada, o combate durou algumas horas e com sucesso incerto. O regimento português nº 18 e a brigada do Major General Barnes empurraram repetidamente o inimigo de volta à sua posição inicial, e ele, por seu lado, graças ao número superior, da mesma forma obrigava as nossas tropas a retirar. Foram executadas algumas cargas brilhantes pelos portugueses e britânicos, particularmente pelo 92 Highlanders e o regimento português nº 18, galantemente dirigidas pelo Major General Barnes. Quatro peças da cavalaria a cavalo do Tenente-Coronel Ross e seis da artilharia portuguesa do Tenente-Coronel [Alexander] Tulloh foram usadas principalmente na defesa do centro, tendo sido muito habilmente dirigidas por aqueles zelosos oficiais. Enquanto a defesa das casas e da estrada estava a cargo do Major General Barnes, achei conveniente dar a minha atenção à esquerda do centro e preservar a comunicação com a posição do Major General Pringle. O regimento português nº 6 e o 6º de caçadores defendiam a esquerda do centro distinguindo-se bastante. O inimigo cresceu rapidamente em número e confiança que se tornou necessário retirar do centro o regimento 71 e duas peças da artilharia a cavalo e mais tarde duas companhias do regimento 92 para apoiar os portugueses. Sucessos vários continuaram. A superioridade numérica do inimigo permitiu-lhe, por volta do meio-dia, ganhar-nos o topo do terreno elevado assim como as cercas e casas vizinhas. A chegada da brigada da esquerda [da divisão] do Major-General [Carlos Frederico] Le Cor, comandada pelo General [Hipólito] Da Costa, foi oportuna. Dei ordem ao regimento nº 2 [português] para contornar a direita das colunas inimigas e logo depois, ao 14º [português] para recuperar o importante terreno que tínhamos perdido em frente. Ambos os movimentos, tal como todos os executados pelo nosso galante aliado na ação de ontem, foram feitos com grande espírito. A carga efetuada pelo regimento nº 14 [português], em coluna, através de uma cerca destruída e por uma estrada arborizada, foi liderada pelo Major Jacintho Travassos e teve a minha maior admiração. 
(Major General Carlos Frederico Lecor)
Efectivamente virou a roda da fortuna do dia naquele ponto. É meu dever recomendar à vossa atenção e à do Marechal Sir William Beresford, aquele corajoso oficial, que foi, segundo sei, gravemente ferido.
Enquanto a contenda continuava, conforme dito acima, no centro da posição, o inimigo depois de repelido voltou a empenhar tropas frescas no ataque, chegou, por vossa ordem, vindo da direita, o Major General Byng com o regimento 57 e um batalhão provisório, deixando o Buffs e as tropas ligeiras da sua brigada, comandadas pelo Tenente-Coronel Bunbury, para defender as alturas de Vieux Mouguerre. Apesar de este oficial ter sido, aparentemente, obrigado pela divisão Darmagnac a retirar para a retaguarda da posição, ao receber a vossa ordem para recuperar a povoação, o assalto foi executado com espírito, e o inimigo forçado a abandonar a altura, principalmente pelo empenho do Capitão Cameron (do Buffs): ele comandou as tropas ligeiras distinguindo-se muito, como em todas as ocasiões, e capturou um tenente-coronel e alguns «chasseurs» inimigos.
Até à uma hora da tarde viram-se os comandantes inimigos tentando lançar colunas frescas no ataque ao centro e essas colunas recusando avançar. Pareceu então oportuno fazer avançar a nossa direita, em frente da posição original do Major General Byng, e desapossar o inimigo de uma crista na qual ele tinha muitas forças e algumas peças com as quais incomodava o nosso centro. Ordenei ao Major General Byng para reunir a sua brigada do centro e a do alto de Vieux Mouguerre e atacar a crista. O movimento combinado foi executado com grande discernimento e coragem sob um fogo intenso por parte do inimigo. O Major General foi o primeiro a chegar o topo da colina com a bandeira do batalhão provisório nas mãos: o inimigo foi expulso da crista e empurrado para baixo para o subúrbio de St. Pierre, abandonando uma peça de 8 polegadas. O Major General louva calorosamente no seu relato o Tenente-Coronel Leith e o batalhão provisório pelo seu serviço. O inimigo fez um esforço mal planeado para retomar a posição, coberto por um forte bombardeamento de artilharia, mas a tentativa foi frustrada pela chegada da brigada portuguesa do Brigadeiro General Buchan em apoio do posto.
Na esquerda o Major General Pringle foi inicialmente atacado por tropas ligeiras e mais tarde de forma mais sólida. Manteve bem a sua posição e fazendo avançar a sua brigada para os postos avançados, já dentro do alcance do campo entrincheirado inimigo, contribuiu muito com este avanço para repelir o ataque feito contra a esquerda do nosso centro graças ao fogo de flanco feito pelo regimento 28. O Major General refere favoravelmente a conduta do Coronel Belson e daquele regimento. Tendo o Major General Barnes sido obrigado a abandonar o campo devido a duas feridas, o Brigadeiro General Ashworth retomou o comando do centro da posição, e com igual inteligência e espírito restabeleceu os seus postos avançados no terreno que tinha estado na posse dos do inimigo antes da ação, o qual, nesta altura, abandonou uma peça pequena.

(Attack on the road to Bayonne - Dec. 13th 1813 por A. Heath)
A linha avançada assim adquirida ao longo da nossa frente confirmou a vitória do dia.
Ao pôr-do-sol o inimigo retirou para o subúrbio de St. Pierre e o fogo cessou em ambos os lados.
A perda sofrida pela divisão sob o meu comando imediato [2ª divisão], num confronto tão desigual em termos dos números opostos, foi severa. A divisão teve que cumprir bem o seu dever de forma a manter-se no terreno ocupado inicialmente: graças ao apoio ativo e atempado que lhe enviou não foi necessário retirar daquele terreno; nem teria eu feito justiça às vossas disposições de ontem e dos dias precedentes se uma resistência menos firme do que a que ocorreu tivesse sido feita. O inimigo deve ter sofrido severamente dadas a tenacidade do seu ataque e a nossa posição dominante. Parece que nos opôs todo o seu exército, com exceção das duas divisões na margem esquerda do Nive, e uma mantida em reserva na nossa frente. Creio que o Marechal Soult comandou em pessoa.
A chegada da 6ª e depois da 3ª divisão trouxe ao corpo sob o meu comando um apoio valioso, já no fim da ação, que contribuiu muito para o nosso sucesso. Fico em divida particularmente aos Caçadores da 6ª divisão [batalhão nº 9] pela sua cooperação no ataque do Major-General Byng à crista avançada.
Não posso expressar tão calorosamente como deveria a minha aprovação dos generais e oficiais comandantes debaixo das minhas ordens. Dos primeiros, os Majores Generais Barnes e Byng e o Brigadeiro General [Charles]Ashworth distinguiram-se particularmente. Dos segundos, o Tenente-Coronel Cameron, 92 Highlanders, e o Major Gordon, regimento 50, que comandaram as tropas ligeiras do Major General Barnes, foram os mais destacados na minha primeira brigada. O tenente-coronel Leith, regimento 31, e o capitão Cameron dos Buffs na segunda brigada. O tenente-coronel [Maxwell] Grant, regimento português nº 6, que comandou primeiro aquele regimento e depois a brigada, apesar de gravemente ferido no terminar da ação; o tenente-coronel [Peter] Fearon, Caçadores nº 6, e o Capitão Borges [Manuel Pereira Borges], que comandou o regimento nº 18 depois da morte do Major José [Matias José de Sousa], na brigada portuguesa. O mérito do Major [Jacinto Alexandre] Travassos, do regimento português nº 14, foi já indicado por mim. Estou em divida, pelo importante apoio que me prestaram nos seus comandos, aos Majores Generais Pringle e [Carlos Frederico] Le Cor, aos Tenentes-Coronéis [Alexander] Tulloh e Ross e ao Major Jenkinson, da Real Artilharia Britânica, ao Major [João da] Cunha Preto da artilharia portuguesa, e ao capitão [Hugh] Lumley do regimento português nº 18.
Recebi muita assistência por parte dos meus ajudantes pessoais, todos eles feridos, enquanto estiveram no campo: pela quarta vez durante esta campanha aproveito  a oportunidade para chamar a vossa atenção e a do Comandante das Forças para o mérito do Capitão Thorn, Deputado-Assistente do Quartel-Mestre General.
Tenho a honra de incluir os nomes de alguns oficiais cuja a promoção, pelos seus serviços na ação de ontem, peço a vossa recomendação ao Marquês de Wellington.
Tenho a honra de ser, Senhor, um seu fiel servidor,

W. Stewart

Fonte: Supplementary Despatches, Correspondence, and Memoranda of Field Marshal Arthur, Duke of Wellington (...) Volume the Eight (...) London, 1861: p. 438-441.