domingo, 22 de setembro de 2013

Documenta: O Batalhão de Caçadores nº 8 na Batalha de Vitoria

Na batalha de Vitoria os batalhões de caçadores portugueses foram empenhados de forma intensa ao longo do dia, combatendo sempre na vanguarda das colunas aliadas. Temperados nas campanhas dos três anos anteriores, exibiram grande disciplina e eficácia em combate, afirmando-se como as unidades portuguesas mais respeitadas pelos amigos e mais temidas pelo inimigo.


(Soldado de Caçadores nº 6, 1811, por Ribeiro Arthur)

Destacamos o batalhão de caçadores nº 8, um dos que maiores perdas sofreu na batalha de 21 de Junho de 1813, e que mereceu o louvor público de lord Wellington, comandante em chefe aliado, nos despachos que enviou para os governos português e britânico.[1]

Em Vitoria, o batalhão de caçadores nº 8 foi comandado pelo tenente-coronel Dudley St. Leger Hill, e fazia parte da brigada portuguesa comandada pelo brigadeiro William Spry, agregada à 5ª divisão aliada, do general Oswald. Esta divisão fazia parte do corpo aliado que Wellington tinha destacado para atacar a ala direita do dispositivo francês, apoiada no rio Zadorra, e cortar a estrada que ligava Vitoria a França, a principal linha de retirada francesa. Este corpo, que constituía a ala esquerda do exército aliado, estava sob o comando do general sir Thomas Graham e era formada pelas duas brigadas portuguesas independentes, a 1ª e a 5ª divisões, a divisão espanhola de Longa e artilharia e cavalaria britânicas.

Para contextualizar a ação do batalhão apresentamos a tradução de um excerto do relatório enviado pelo general Graham a Wellington depois da batalha:

«O inimigo tinha uma divisão de infantaria, com alguma cavalaria avançada, disposta sobre a estrada principal, apoiando a direita sobre umas alturas de difícil acesso, cobrindo a povoação de Gamarra Maior. Tanto Gamarra como Abechuco, esta na estrada principal, estavam fortemente ocupadas pelo inimigo como testas-de-ponte para as pontes que nelas atravessam o Zadorra. Foi ordenado ao General Pack, com a sua brigada de infantaria portuguesa e ao coronel Longa com o seu corpo espanhol, que flanqueassem e ocupassem aquelas alturas, apoiados pela brigada de dragões ligeiros do General Anson e pela 5ª divisão comandada pelo General Oswald, ao qual foi atribuído o comando geral sobre todas estas tropas. Na execução deste serviço as tropas portuguesas e espanholas comportaram-se admiravelmente. O 4º batalhão de Caçadores da  brigada do general Pack e o 8º de Caçadores da 5ª divisão distinguiram-se particularmente.»[2]


(Ponte sobre o Rio Zadorra em Gamarra Mayor; fotografia do inicio do século XX. Retirada daqui.)

Deixamos ao tenente-coronel Dudley St. Leger Hill a descrição mais detalhada da ação dos seus caçadores, que consta no relatório que enviou ao brigadeiro Spry e que traduzi-mos a partir do original conservado no Arquivo Histórico Militar, 1ª Divisão, 14ª Secção, Caixa nº 243, 18, ms 6 a 8.

Documento: Tradução do relatório do tenente-coronel Dudley St. Leger Hill para o Brigadeiro William Spry

Para o brigadeiro-general Spry

22 de Junho de 1813

Senhor
Tendo sido destacado da sua brigada durante a ação de ontem tenho a honra de lhe comunicar, para informação de sua Excelência o Marechal Sir William Beresford, que recebi ordem do major-general Oswald para colocar o 8º de Caçadores sob o comando imediato do brigadeiro-general Pack e, em combinação com o 4º de Caçadores, expulsar o inimigo das alturas por ele ocupadas na frente da coluna da esquerda do Exército.
Esta ordem foi executada com a maior prontidão e eu não posso dizer o suficiente em louvor da galhardia e desenvoltura dos meus soldados e oficiais. As alturas a que tivemos de ascender eram de difícil acesso e o fogo do inimigo bastante intenso mas mesmo assim nós conseguimos ir expulsando o inimigo das várias colinas que ele foi ocupando sucessivamente e obrigando-o a retirar para lá do rio [Zadorra].
O comportamento do batalhão na subsequente perseguição feita ao inimigo após a retirada referida foi também digno de nota, tendo avançado na vanguarda das várias linhas de colunas do Exército em combinação com o 4º de Caçadores empurrando à sua frente as numerosas tropas ligeiras inimigas de infantaria e de cavalaria.
Como o general Pack irá certamente informar sua Excelência [Beresford] sobre a conduta das tropas empregues sob o seu comando peço-lhe que chame a atenção a sua Excelência [Beresford] para o relatório do general e também que no seu tenha a bondade de mencionar a sua opinião sobre o comportamento do batalhão no inicio da ação, o qual não deve ter escapado à sua observação.
Os oficiais do batalhão comportaram-se com grande bravura e recomendar aqueles que se distinguiram seria injusto para todos. Tenho, no entanto, de lhe pedir que informe sua Excelência da brava e destemida conduta do sargento-ajudante do batalhão, o qual, em várias ocasiões durante o dia se distinguiu, dirigindo o avanço das companhias exibindo grande sangue frio e procedendo de forma judiciosa na colocação dos soldados que lhe foram confiados. O nome do sargento-ajudante é Domingos Lopes e já tinha sido recomendado anteriormente pela sua boa conduta.

Tenho a honra de ser o seu mais obediente criado

Dudley Hill Tenente-Coronel 8º Caçadores

Nota 1: No site Napoleon Series é possível consultar um mapa da batalha de Vitoria.

Nota 2: As traduções são de Moisés Gaudêncio.


[1] The Dispatches of Field Marshall The Duke of Wellington (…) Volume The Tenth, 1838, p. 449.
[2] Supplementary Despatches, Correspondence and Memoranda of Fiel Marshall Arthur Duke of Wellington (…) Volume The Eight. 1861, p. 7.

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